
Estes pares de sapatos pertencem à Van Gogh, que para mim, é uma de suas obras mais tocantes, mais significantes...para muitos, talvez pareça sem sentido, sem nexo...Mas esses objetos pintados dizem muito... é o mais belo autorretrato que ele produziu, o mais sujo, o mais grotesco, porém, ao mesmo tempo, o mais sublime, o mais revelador...
Meus "sapatos" estão novinhos, ainda com cheiro de fábrica...quero rodar o mundo, quero pisar em territórios estranhos, quero sofisticar meu pensamento...
Em dias como hoje, com chuva torrencial lá fora, impedindo-me de fazer quaisquer atividades, além de comer, dormir e pensar...encontro-me compartilhando devaneios, palavras ao vento, idéias, projeções...
...e os gregos já diziam, que o pensamento é a ginástica da alma...
Pensadoras e artistas que somos, nos tornamos bobonas, meio, ou inteiramente "viajonas", porque somente quem lê Blanchot, Nietzsche e cia consegue chegar um pouquinho perto da loucura...Mas uma loucura um tanto avassaladora, que nos leva a devaneios sólidos, que nos fazem felizes de tristes, que nos auto-disciplinam, que nos transformam...
Quando Goethe afirma que "escrever é um ócio muito trabalhoso" ele está coberto de razão...
Um delírio consistente, um devaneio racional, onde o leitor sonha, junto comigo, ou não...
São nestes momentos que me pego pensando sobre o conhecimento humano, lembro-me de Gulliver, aquele cara que ora era gigante, ora pequeno, ora um estranho...somos como ele, tal e qual, principalmente no que diz respeito às nossas inquietações enquanto seres pensantes, e não apenas operantes. O mundo está abarrotado de seres operantes, que só agem, trabalham, comem e dormem. Não pensam, não inventam, não recriam, estão em sono profundo e não se deram conta...
Pensar dói, e o pior, procurar pensar é ainda mais irritante...mas já estou neste barco, envolvida demais...não tem como voltar atrás. A busca pela erudição alimenta minha alma, faz com que eu tenha fome de saber, se isto é bom ou ruim, não sei. O que sei é que na arte renascemos e nela nos reconhecemos e eu caminho para conquistar novos horizontes, guiar-me ao desconhecido, andar pelo escuro, em busca da luz...Vou calçando meus sapatos para sair da escuridão, seguindo os conselhos de Platão...em busca da luz, vou sair da caverna, sair da mesmice, da rotina, vou pisar no território desconhecido, vou fazer diferente, vou ousar...
E aí, vamos?
Pri Anversa





